O setor da construção civil em Três Pontas vive um momento de crescimento visível — com obras públicas e privadas avançando em ritmo acelerado — mas esse cenário positivo “tem dois lados da moeda”. Enquanto as frentes de serviço se multiplicam, empresas enfrentam sérios obstáculos para contratar profissionais como pedreiros, serventes, eletricistas, encanadores e outros especialistas.
Panorama local
De acordo com relato de empresários locais:
- A empresa Vinhas Engenharia, segundo Thiago Vilela de Oliveira, aponta que a escassez de mão-de-obra qualificada não é recente, mas agravou-se nos últimos dois anos.
- Uma das causas citadas: mesmo com salários razoáveis, muitos profissionais recusam a formalização trabalhista (carteira assinada), por receio de perder benefícios sociais como Bolsa Família.
- A empresa Gomes e Brito Engenharia enfrenta atrasos na obra do novo Pronto Atendimento Municipal (PAM) por falta de serventes e pedreiros.
- Há ainda o problema de renovação etária: poucas pessoas jovens aceitam entrar na construção civil em Três Pontas, e a média etária está crescendo, com escassez de profissionais abaixo de 25-30 anos.
- A sazonalidade agrícola também pesa: durante a colheita do café, muitos profissionais migram temporariamente para o campo, deixando obras paradas ou com ritmo reduzido.
Situação nacional: você não está sozinho
Os desafios vividos em Três Pontas refletem tendências mais amplas no Brasil:
- Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para o setor da construção mostrou que 71,2% das empresas tiveram dificuldades para contratar trabalhadores qualificados nos últimos 12 meses, sendo que 39% relataram muita dificuldade. blogdoibre.fgv.br+1
- A média de idade dos trabalhadores da construção civil já é elevada — no Brasil, média em torno de 42 anos, segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Serviços e Informações do Brasil+1
- A informalidade no setor segue alta: por exemplo, em São Paulo, trabalhadores formais representam cerca de 25,5% dos ocupados no setor da construção. CBIC
- Em estudo da FGV, 58,7% das empresas em geral relatam escassez de mão-de-obra qualificada — construção lidera esse indicador. construconnect.com.br+1
Quais são as principais causas?
Combinam-se vários fatores, alguns específicos de Três Pontas, outros gerais para o país:
- Baixa atratividade da profissão – Muitos jovens não querem “botar a mão na massa”, preferindo profissões ligadas à tecnologia, escritório ou com menos exposição ao sol/canteiro. (como citado localmente)
- Informalidade e benefícios sociais – Profissionais que dependem de programas sociais podem ver a formalização trabalhista como risco de perder esses benefícios. (situação ilustrada em Três Pontas)
- Falta de qualificação técnica atualizada – A construção civil está se sofisticando, exige acabamento, instalação, tecnologias novas; falta oferta de qualificação alinhada. constructin.com.br+1
- Envelhecimento da força de trabalho – Muitos profissionais estão mais velhos, enquanto poucos jovens entram no setor. Consequência: “apagão” de renovação. CPG Click Petróleo e Gás+1
- Concorrência por mão-de-obra e sazonalidade – Em regiões agrícolas ou com forte colheita, como no café, trabalhadores migram temporariamente. Em Três Pontas, isso já é observado.
- Condições de trabalho, jornadas difíceis, risco físico – O setor tem cargas pesadas, trabalho ao ar livre, sol, risco — fatores que afastam novos ingressantes. CUT – Central Única dos Trabalhadores+1
Impactos para as obras e economia local
- Atrasos nos cronogramas: De acordo com relato local, no PAM várias frentes pararam por falta de serventes/pedreiros.
- Elevação de custos: Em nível nacional, a escassez de mão-de-obra está associada à elevação dos custos da construção: a inflação da mão-de-obra chegou a 8,56% no último ano. locadoresbr.com.br
- Qualidade comprometida: Falta de acabamento, retrabalho, maiores prazos, menor entrega de valor agregado — conforme setor afirma que isso prejudica competitividade. quimicryl.com+1
- Risco para o desenvolvimento local: Em Três Pontas, o crescimento da cidade (novas obras, investimento) pode ficar prejudicado se não houver mão-de-obra para sustentar o ritmo.
- Desestímulo ao setor: Com atrasos e custos maiores, algumas obras podem se tornar menos rentáveis ou arriscadas, impactando a atratividade de investimento no município.
Caminhos para solução
Com base no diagnóstico, seguem-se sugestões práticas para Três Pontas (e aplicáveis a muitos municípios similares) — cabe a empresas, governo local, escolas técnicas e entidades do setor atuarem em conjunto:
- Parcerias com escolas técnicas e programas de aprendizagem: Desenvolver cursos de pedreiro, servente, eletricista, carpinteiro, com foco prático e entrada de jovens, inclusive residentes locais.
- Campanhas de valorização da profissão: Mostrar que “ser pedreiro, carpinteiro ou eletricista é uma arte”, como já disse o empresário local — mudar a percepção negativa ou antiga da construção civil.
- Incentivos à formalização: Examinar localmente se há formas de suavizar o impacto da perda de benefícios sociais ao formalizar-se, para que o trabalhador não “abra mão” da carteira assinada por receio.
- Melhoria das condições de trabalho: Atualizar práticas de segurança, reduzir exposição, jornadas mais equilibradas, introdução de tecnologia, tornar o canteiro mais “atraente” para jovens.
- Uso de tecnologia e processos industrializados: Automatização, pré-fabricação, construção modular — reduzem demanda por mão-de-obra intensiva, aumentam agilidade e eficiência. assets.kpmg.com+1
- Planejamento para sazonalidade: Em regiões com economia agrícola forte, considerar plano de contingência para épocas de colheita, retenção de trabalhadores, ou contratação antecipada.
- Atrair mulheres e novos perfis: Ampliar oportunidades para mulheres na construção, oferecer ambientes inclusivos — o que pode ajudar a ampliar o pool de candidatos. CBIC
Considerações finais
Para Três Pontas, o desafio da construção civil — embora grave — também traz oportunidade. O fato de haver demanda, obras em andamento e necessidade de profissionais especializados indica que, com intervenção estruturada, o município pode se diferenciar e superar o gargalo. Se conseguir qualificar, atrair e reter mão-de-obra, poderá garantir entregas no prazo, melhorar os níveis de acabamento, alavancar custo-benefício e ainda gerar mais empregos formais — o que, por sua vez, fortalece a economia local.
Junior Flávio / OPZ Play
https://equipepositiva.com/falta-de-mao-de-obra-preocupa-setor-da-construcao-civil-em-tres-pontas
