Professora agride criança autista em Pedra Azul: casos se repetem e expõem falta de capacitação nas escolas brasileiras

Professora agride criança autista em Pedra Azul e caso expõe grave falha na capacitação dos profissionais de apoio

O clima na Escola Municipal Vereador Levy Roberto, em Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, virou motivo de revolta após uma professora de apoio ser flagrada gritando, intimidando e agredindo verbalmente uma criança autista de apenas 6 anos. O vídeo, gravado dentro da sala de aula, rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais e acendeu mais uma vez o alerta nacional sobre a negligência e a falta de preparo de profissionais contratados para trabalhar com crianças neurodivergentes.

A Prefeitura de Pedra Azul confirmou, em nota oficial, que a servidora foi afastada imediatamente e que um Processo Administrativo Disciplinar Sumário foi instaurado para apurar o caso e garantir o “melhor interesse da criança”. O município declarou ainda que repudia veementemente qualquer comportamento inadequado contra alunos, especialmente quando envolve crianças com necessidades específicas.

Vídeo mostra agressões, gritos e ameaças dentro da sala de aula

As imagens registradas pelos estudantes mostram a professora sentada ao lado da criança autista. Em seguida, ela começa a gritar, balança a estudante e passa a intimidar toda a turma.
Em um dos trechos, ela diz frases como:

“Eu resolvo a sua vida. Agora ninguém mais resolve a sua vida. […] A partir de segunda-feira, você não vem à escola mais. Não sou sua professora mais. […] Quem é o próximo agora?”

A gravação termina com a sala em completo silêncio, enquanto a professora permanece exaltada ao lado da aluna.

A vítima, uma criança de 6 anos diagnosticada com TEA, segue acompanhada pelo município e por conselheiros tutelares.

Casos semelhantes mostram que a violência não é exceção — é recorrente

O episódio em Pedra Azul não é isolado. Apenas em 2025, vários casos de agressão contra crianças autistas em escolas públicas vieram à tona no país.
Em junho de 2025, um caso semelhante ocorreu na Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Nova Lima, quando uma professora agrediu um aluno de 4 anos dentro da Escola Municipal Santa Terezinha.

Na época, segundo nota da Secretaria Municipal de Educação, a educadora teria dado dois tapas no ombro da criança, além de agir de forma hostil e desrespeitosa. A servidora também foi suspensa e o caso encaminhado à Corregedoria Geral do Município.

A repetição desses episódios escancara um problema profundo e negligenciado: os profissionais de apoio escolar continuam sendo contratados sem formação adequada para lidar com crianças neurodivergentes.

A raiz do problema: falta de capacitação, ausência de treinamento e contratação inadequada

Apesar de a legislação brasileira garantir o direito ao acompanhamento especializado, a realidade nas escolas é bem diferente.
A maioria dos profissionais de apoio escolar é contratada com apenas ensino médio e, muitas vezes, sem qualquer formação específica em:

  • desenvolvimento infantil
  • comportamento
  • TEA e outras neurodivergências
  • estratégias de regulação emocional
  • manejo de crises sensoriais

Essa fragilidade estrutural coloca crianças vulneráveis em risco — e transforma a “inclusão” em uma ameaça à integridade física e emocional dos estudantes.

O caso de Pedra Azul é apenas mais um reflexo de um sistema que falha em proteger justamente quem mais precisa.

O que diz a lei: direitos existem, mas não são cumpridos

A Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) garante às pessoas com TEA o direito ao acompanhamento especializado, sempre que comprovada a necessidade por avaliação multiprofissional.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei nº 13.146/2015) reforça esse direito e estabelece que o profissional de apoio é obrigatório sempre que o estudante precisar de suporte para sua participação plena e efetiva na escola.

Porém:

  • A legislação não exige formação superior;
  • Não define um padrão nacional de capacitação;
  • Deixa a critério dos municípios a contratação e treinamento — o que gera grandes desigualdades;
  • Muitas escolas não têm supervisão psicológica, pedagógica e terapêutica adequada.

Resultado: profissionais despreparados para lidar com crises sensoriais, comportamentos desafiadores ou especificidades de comunicação acabam adotando condutas autoritárias, inadequadas e violentas.

Mães atípicas vivem sem paz

Para milhares de mães de crianças autistas, cada dia de aula é motivo de ansiedade.
O medo de novas agressões, negligência, humilhações e maus-tratos é constante.

Muitas precisam escolher entre:

  • trabalhar ou acompanhar a criança na escola
  • confiar no sistema ou retirar o filho da rede pública
  • lutar diariamente por direitos que já estão garantidos por lei

Esse cenário reforça que a inclusão, quando feita sem estrutura, deixa de ser inclusão e se torna risco.

Conclusão: casos como o de Pedra Azul continuarão acontecendo enquanto não houver capacitação obrigatória e padronizada

Os episódios de Pedra Azul e Nova Lima revelam uma falha grave e estrutural na educação inclusiva brasileira:
não existe política pública nacional que garanta formação mínima, obrigatória e especializada para profissionais de apoio escolar.

Sem treinamento, supervisão e protocolos específicos, as agressões seguirão acontecendo — silenciosas ou filmadas. O direito existe.
A lei existe.
O que falta é preparo, responsabilidade e compromisso real com a proteção das crianças neurodivergentes.

Por Américo Turola, autista.

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