Sul de Minas enfrenta a pior década de estiagens: nível crítico do Lago de Furnas volta a cair e compromete pesca, piscicultura e turismo

O reservatório opera com apenas 29% do volume útil e mantém a pior média hídrica dos últimos 10 anos; especialistas alertam para impactos ambientais, econômicos e sociais.

O Lago de Furnas, um dos mais importantes reservatórios de Minas Gerais, voltou a registrar queda acentuada em 2025, alcançando níveis que acendem um alerta vermelho em toda a região. Com apenas 29% do volume útil, o cenário compromete diretamente a pesca, a piscicultura, a navegação e o turismo, pilares econômicos de dezenas de cidades do Sul de Minas.

O nível da represa está abaixo da cota mínima recomendada desde setembro, repetindo um padrão que vem se agravando ao longo da última década e trazendo consequências cada vez mais severas para as famílias que dependem do lago.

Lago exposto, navegação reduzida e comunidades impactadas

Em Alfenas, um dos municípios mais afetados, áreas que costumeiramente permaneciam submersas hoje se transformaram em faixas de terra firme, com vegetação surgindo em meio ao que antes era superfície navegável. Em alguns trechos, moradores relatam que é possível caminhar onde, há poucos anos, era necessário embarcação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) classifica o atual volume como crítico. Registros apontam que:

  • Em agosto de 2025: cota estava em 762 m
  • Em setembro: 761 m
  • Em outubro: 759 m
  • Em dezembro: 757 m, limite mínimo para garantir funções essenciais

A baixa frustrou expectativas do setor turístico, reduziu áreas de pesca e tornou as rotas navegáveis inseguras.

Rafael Alves de Barros, coordenador de Pesca e Piscicultura de Alfenas, reforça que a queda do lago afeta diretamente a renda de pescadores, piscicultores e profissionais do turismo.

Segundo ele, ao menos 15 piscicultores e dezenas de pescadores profissionais monitorados pelo município enfrentam perdas imediatas. O principal problema é a redução da oxigenação da água, consequência da pouca profundidade e da redução do movimento natural do reservatório.

Comparativo histórico: o pior cenário hídrico desde 2015

A crise atual não é um evento isolado. Um levantamento comparativo dos últimos 10 anos revela uma tendência de queda progressiva, marcada por ciclos de seca mais intensos e operação mais agressiva dos reservatórios para geração de energia.

Linha do tempo comparativa (2015–2025)

  • 2015–2017: anos críticos do ciclo de seca nacional. Furnas operou entre 25% e 40% do volume útil.
  • 2018–2019: leve recuperação, com picos próximos a 60%. Pesca e turismo voltaram a crescer temporariamente.
  • 2020–2021: nova queda brusca por conta da crise energética nacional. Volume útil chegou a 30%.
  • 2022–2023: regime de chuvas acima da média elevou o nível, com médias de 70% em alguns meses, gerando otimismo.
  • 2024–2025: pior sequência de estiagens da década. O volume útil desabou para 29%, o segundo pior patamar desde 2015.

A oscilação evidencia que Furnas enfrenta um ciclo de instabilidade que se intensifica, pressionando atividades econômicas e a segurança hídrica regional.

Pesca e piscicultura: risco elevado para as espécies e para a renda das famílias

Com a diminuição da profundidade, o lago perde capacidade de renovação e oxigenação, elevando o risco de mortalidade de peixes, especialmente em tanques-rede, modelo predominante na região.

Para os pescadores profissionais, a baixa profundidade dificulta o uso de embarcações e reduz áreas de captura, o que diminui a produtividade e eleva o custo operacional.

A situação também afeta a reprodução natural das espécies nativas, que dependem de margens com vegetação submersa e movimentação adequada da água.

Turismo sofre retração pelo quarto ano consecutivo

A navegabilidade é um dos principais atrativos da represa, que movimenta pousadas, restaurantes, marinas e empresas de turismo náutico. Com a queda do nível, diversas rampas de acesso ficaram inutilizadas, e trajetos turísticos foram suspensos devido ao risco de encalhe.

Segundo operadores locais, a diminuição do lago reduziu em até 50% a demanda por passeios náuticos em alguns fins de semana. A economia regional, que sempre tratou Furnas como um motor de desenvolvimento, volta a sentir os efeitos da redução do volume.

Expectativa para dezembro: chuvas podem aliviar, mas não resolvem

A previsão meteorológica indica chuva acima da média para dezembro, o que pode trazer alívio temporário. No entanto, especialistas afirmam que a recuperação de Furnas depende não apenas do regime de chuvas, mas também de ajustes operacionais na gestão do reservatório.

O nível atual exige reavaliação de prioridades: produção de energia, abastecimento, turismo e preservação ambiental entram em tensão permanente.

Conclusão: um alerta que exige governança e participação social

O Lago de Furnas simboliza um patrimônio hídrico, econômico e ambiental do Sul de Minas. A baixa atual não é apenas um evento climático, mas um reflexo de uma década de desafios estruturais, gestão complexa e mudanças no regime hídrico nacional.

A expectativa de moradores e trabalhadores é que as chuvas recuperem parte do volume perdido, permitindo o retorno seguro da pesca, da navegação e do turismo. Mas o consenso entre especialistas é claro: sem uma governança mais estratégica para o uso da água, o Sul de Minas continuará vivendo ciclos de escassez e prejuízos crescentes.

Junior Flávio / OPZ Play

https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2025/12/09/baixa-no-lago-de-furnas-acende-alerta-em-cidades-do-sul-de-minas.ghtml

Rolar para cima